Pesquisando a Coleção Militão Augusto de Azevedo
do Museu Paulista: um Inventário da Sociedade Paulistana (1865-1885)
Marcelo Eduardo
Leite
Resumo
A presente comunicação tem
como objetivo central apresentar a produção de retratos de Militão Augusto
de Azevedo na cidade de São Paulo, entre os anos de 1865 e 1885. Embora mais
conhecido, e estudado, como fotógrafo de paisagem urbana em transformação,
Militão é possuidor de uma das mais interessantes coleções de retratos de
personagens da sociedade paulistana do século XIX. As figuras por ele retratadas
atestam sua grande preocupação com o contexto social e com a ampla gama de
tipos humanos que compunham a cena paulistana da época. A análise desta produção
retratística de Militão oferece uma via de acesso privilegiada para a compreensão
da sociedade brasileira no século XIX. Pelas lentes do fotografo é possível
captar a heterogeneidade humana e social que compõe o cenário urbano de São
Paulo, com ênfase nos gestos e atitudes, nos modos e modas.
A fotografia de Militão Augusto de Azevedo
O
presente trabalho tem como objetivo central a análise da produção retratística
de Militão de Azevedo em São Paulo, especialmente de uma coleção de retratos
por ele organizada entre 1865 e 1885. A escolha desse fotógrafo se justifica,
antes de mais nada, pela grandeza do material por ele deixado, que pode ser
aferida tanto pela qualidade técnica e artística dos retratos, como também
pelo seu volume. Militão deixou um importante acervo que possibilita as mais
variadas abordagens e interpretações, e que vem sendo trabalhado por estudiosos
das mais variadas áreas do conhecimento. Se isto é verdade, as pesquisas têm
recaído fundamentalmente sobre as suas paisagens urbanas e não sobre os retratos,
objeto de interesse deste trabalho.
As
fotografias de Militão, de modo geral, se inserem num novo bloco de produções
imagéticas do século XIX no Brasil, que vem à tona a partir de 1860 com
o surgimento de um grande número de ateliês fotográficos nas mais importantes
cidades o país. Este momento tem na carte de visite [1]
e no cabinet portrait [2] seus principais produtos. A produção de Militão,
no entanto, se diferencia daquela do período, voltada sobretudo para o registro
das elites, principalmente pelo fato de retratar os mais variados personagens
da sociedade paulistana; por isso mesmo seus registros impõem uma profunda
reflexão a respeito da sociedade brasileira da época. É o que indica Kossoy,
quando afirma que estes retratos chamam a atenção pelo fato de formalizarem
não "[...] apenas os representantes da elite. O vasto arquivo comprova
não existirem distinções sociais nem raciais diante de sua objetiva"(KOSSOY, 1978,: 117). Para o autor, as lentes "democráticas" de
Militão "[...] constituem-se para historiadores, antropólogos, sociólogos,
e outros estudiosos [...]", farta documentação que sugere interpretações
significativas (KOSSOY,1980:51).
Seguindo
a trilha dos trabalhos que apontam para a importância da fotografia no Segundo
Império, este trabalho, privilegia a análise do material fotográfico produzido
por Militão de Azevedo, acompanhando, pela análise detida nas imagens, como
novos segmentos sociais vão tendo acesso ao recurso fotográfico, desenhando
novas caras do país e do povo brasileiro, e destacando a heterogeneidade do
período. Os retratos de Militão permitem realizar uma reflexão a respeito
da sociedade brasileira e sobretudo da sociedade paulistana no final do século
XIX, permitindo também acompanhar as transformações da fotografia como recurso
técnico, como forma expressiva. Jogam luz ainda sobre a figura do fotógrafo,
como profissional e artista no período em questão.
O
século XIX, já no seu início, é marcado pelo advento da fotografia, fruto
dos mais variados estudos que buscaram, pela união dos conhecimentos da física
e da química, a produção de uma imagem reprodutível. A descoberta se acomoda
com perfeição em um cenário atravessado por grandes transformações técnicas
em todas as áreas e atividades. Em 1839, o daguerreótipo é reconhecido
como o primeiro registro fotográfico, porém em cópia única. Posteriormente,
novos experimentos possibilitam a reprodução em série; em 1850, por exemplo,
temos o aparecimento do colódio úmido
[3] que, permitindo uma maior difusão de imagens,
se adapta melhor ao mercado em formação e às necessidades das novas camadas
sociais.
O
daguerreótipo chega ao Brasil em 1840, apenas poucos meses depois de
sua difusão e encontra aqui um ambiente com características bem diferentes
das européias. O país vive o início do Segundo Império, sob o comando de um
novo imperador, que assume o poder aos 14 anos de idade, após o golpe da maioridade.
A sociedade encontra-se dividida basicamente entre o aparato imperial, a aristocracia
rural, uma população de trabalhadores livres e a mão-de-obra escrava. Se,
de um lado, observa-se uma estrutura agrária tradicional, que herdara da época
colonial toda uma estrutura sócio-econômica, por outro, novos valores e modismos
se difundem no país sobretudo através da elite que viaja freqüentemente para
o continente europeu. O desenvolvimento do uso do daguerreótipo se
dá inicialmente nas áreas portuárias, o que reflete a realidade de um país
colonizado, regido por um modelo exportador de produção e para a importação
de novidades européias.
A
fotografia chega então ao país simultaneamente ao seu lançamento na França,
e é acoplada de imediato ao aparato imperial. D. Pedro II, um apaixonado
pelo registro fotográfico, é o primeiro cliente dos fotógrafos que aqui se
instalam. Ao contrário das aristocracias européias que viam a pintura como
a "verdadeira" forma de registro, considerando a fotografia como
uma "imagem burguesa" e, portanto "menor", o imperador
procura, já no início do seu governo, aliar a sua imagem ao significado moderno
da fotografia. Os registros fotográficos são responsáveis pelo reconhecimento
do governo imperial mundo afora e, mesmo nos locais mais distantes, os artistas
se colocam a serviço de um Império preocupado em mostrar ao mundo sua almejada
solidez. Num projeto modernizador que contraditoriamente mantém, dentro de
sua estrutura econômica e social, a escravidão.
As
imagens do Brasil dos primórdios do Segundo Império, sejam aquelas fixadas
pelas litografias, pinturas ou daguerreótipos, têm a preocupação de
projetar a magnitude das obras aqui desenvolvidas, como ferrovias e construções
arquitetônicas, sublinhando a existência de uma civilização dos trópicos,
como indicam as fotos exibidas nas Exposições Universais. Diante disso,
é possível afirmar que os primeiros registros produzidos entre nós se caracterizam
pelo desenvolvimento de um olhar mais ligado ao futuro do império do que ao
passado colonial.
Mas,
em uma monarquia na qual convivem escravidão, miscigenação, um projeto civilizador
de cunho europeizante, personagens variados, cenário urbano em construção,
elites agrárias, índios etc., é natural que, do jogo de representações que
a fotografia permite explorar, participem todos os elementos da nação. Os
fotógrafos e seus trabalhos permitem inclusive que a população da capital
tenha contato com as "entranhas" da nação. A fotografia tem, também
desta maneira, um papel fundamental no "estreitamento" do espaço
geográfico de um país continental, permitindo que o país se conheça através
das imagens fotográficas.
Assim,
os fotógrafos pioneiros não se voltam exclusivamente para os índices de modernização,
de acordo com as demandas do monarca e de suas elites. Se estes profissionais,
em algumas ocasiões, mantém vínculos diretos com o imperador e os setores
dirigentes do Segundo Império, em outros, estabelecem laços seja, por exemplo,
com missões científicas estrangeiras, seja com as elites agrárias; atendem
ainda a uma vasta clientela urbana com o advento das carte de visite.
Ao descrever o trabalho dos primeiros fotógrafos atuantes no Brasil, Gilberto
Ferrez, na precursora obra A fotografia no Brasil (FERREZ, 1953: 99),
já menciona que, paralelamente à prestação de serviços ao imperador e à elite
cafeicultora, os fotógrafos pioneiros buscam novos temas participando inclusive
de importantes expedições etnográficas pelo interior do país.
Na
segunda metade do século XIX, a capital imperial conta com um crescimento
dos estúdios fotográficos e, sobretudo com a grande expansão cafeeira, vários
estúdios são instalados no Vale do Paraíba e na cidade de São Paulo. Em um
momento em que os elementos da vida burguesa são difundidos com rapidez e
uma nova força surge dos escombros da antiga ordem, as representações de status
ganham importância diante de uma nova realidade que acena para a possibilidade
de ascensão social. Forma-se assim uma sociedade "[...] em que as relações
sociais estão sujeitas a freqüentes mudanças no tempo e no espaço; em que
predomina uma variedade muito grande de critérios de julgamento; em que as
demarcações sociais não são intransponíveis e a comunicação entre os grupos
é uma regra [...]" (SOUZA,1987:123). Assim, partir de 1877, principalmente
após a ligação por ferrovia entre São Paulo e Rio de Janeiro, os novos costumes
da capital imperial se difundem com maior facilidade. Para a população das
cidades do Vale do Paraíba nota-se a necessidade de registrar a prosperidade
vivida e, ao mesmo tempo, é possível perceber, em diferentes regiões, a influência
da moda, da arte e da cultura européia, sobretudo francesa.
É
em um momento marcado pela procura de novos mercados que o jovem Militão vem
para a província de São Paulo, em 1862. Nascido em 1840 no Rio de Janeiro,
vindo a falecer em 1905 em São Paulo, Militão inicia sua atividade fotográfica,
ainda na capital imperial, quando provavelmente trava "[...] conhecimento
com os proprietários do estúdio Carneiro & Smith [...] ainda nos
anos 50"(KOSSOY, 1980: 17). Tendo desenvolvido paralelamente as atividades
de ator e de fotógrafo, Militão atuou na Companhia Joaquim Heleodoro (1858-1860),
mas foi a vinda da Companhia Dramática Nacional, onde trabalhou entre
1860-1862, o verdadeiro motivo da sua vinda à capital paulista,
quando esta "[...]se estabelecia na cidade para uma temporada e da qual
Militão participava como ator" (CARVALHO e LIMA, 1998: 111). Esta experiência
no teatro, a meu ver, tem influência decisiva no modo de Militão fotografar.
Enquanto outros fotógrafos dedicam-se prioritariamente aos retratos, o grande
mercado da época, notamos que ele exerce uma liberdade criativa ao eleger
a paisagem urbana como objeto de seus registros. Nota-se, assim, como característica
fundamental do seu trabalho, sobretudo nas paisagens de 1862, o que Lima e
Carvalho chamam de o olhar de um "[...] visitante aprendiz de fotografia
e não de um profissional contratado por uma instituição ou empresa" (IDEM).
Estas
fotos tiradas em 1862 foram usadas posteriormente num dos mais importantes
documentos existentes a respeito da cidade de São Paulo no século XIX, o Álbum
Comparativo de Vistas da Cidade de São Paulo. Fruto do reaproveitamento
de paisagens urbanas que não foram vendidas pelos ateliês de Carneiro &
Gaspar e Photographya Americana, bem como de devoluções
de fotos enviadas a outros ateliês, o Álbum Comparativo de Vistas
da Cidade de São Paulo confronta registros fotográficos tirados entre
1862 e 1887 que mostram várias localidades da cidade e suas transformações
urbanas. Para Lima, o Álbum Comparativo "[...] pode ser considerado
um exemplo da percepção do discurso baseado na idéia de progresso que iria
justificar as intervenções urbanísticas na cidade nos anos subseqüentes"(LIMA,
1991:68).
Paralelamente
às paisagens urbanas, já a serviço do ateliê Carneiro & Gaspar,
Militão é responsável por milhares de retratos. Segundo Kossoy, os retratos
de Militão "[...] denotam a visão crítica de um fotógrafo que vai além
do simples ato repetitivo de operador da câmera, ao retratar os mais diferentes
tipos humanos de uma sociedade em formação e constituem um documentário único
da paisagem urbana de São Paulo da época"(KOSSY, 1978:12). Sobre os retratos,
o autor considera, ainda, que estes "gravaram democraticamente os tipos
dos diferentes estratos sociais" (KOSOY, 1980: 51), fornecendo "um
farto arquivo visual de tipos da época [...]" (KOSSOY, 1978: 08).
Fruto
da atividade profissional fotográfica mais popular e mais rentável no século
XIX, estes retratos chamam a atenção pelo fato de, em muitos casos, os retratados
serem registrados, com sua indumentária habitual e em poses que denotam maneiras
cotidianas. Militão registra estes mais diferentes tipos sociais, num período
em que a fotografia, e sobretudo as carte de visite, ainda está a serviço,
como vimos, da construção simbólica e da afirmação social dos segmentos emergentes,
no campo e nas cidades. Isto é: podemos considerá-lo um fotógrafo diferenciado
no tocante ao uso da carte de visite, já que retrata inúmeros personagens
comuns da urbe paulistana, como escravos, estudantes, padres, soldados, músicos,
atores, colonos, políticos, etc..
Estudos
recentes apontam que o Photographia Americana, criado em 1875 por Militão,
muito provavelmente, tinha uma clientela mais popular que os demais estúdios
instalados em São Paulo neste período. Segundo Lima, o preço cobrado pelas
fotos era um dos mais baratos de São Paulo: "uma dúzia de retratos era
vendida no Photographia Americana por 5$000, o equivalente a duas camisas
para homem ou cinco passagens para a Penha"(LIMA, 1991: 75). A própria
localização do ateliê de Militão, defronte à "[...] Igreja do Rosário,
freqüentada pela população negra [...] na então rua da Imperatriz, 58"
(CARNEIRO e LIMA, 1998: 116), talvez explique a grande quantidade de negros
fotografados, bem como a própria forma em que estes aparecem nessas fotos,
não como escravos, tal como nas fotos de Christiano Júnior, que toma o modelo
na sua condição escravista. Inúmeras cartes de visite mostram ainda
artistas de teatro e coristas, muitos retratados quando da passagem por São
Paulo para as apresentações. Esta proximidade existente entre o trabalho de
Militão e o meio artístico - do qual, lembremos, ele nunca se desligou totalmente
- é mais um elemento diferenciador a ser considerado na análise.
Descontente
com o desempenho do seu estabelecimento, Militão coloca-o à venda no ano de
1884, alegando, como mostra sua correspondência com amigos, a falta de um
profissional retocador, além de um gerenciamento melhor. Enfrentando sérios
problemas comerciais, acaba por liquidar o Photographia Americana em
outubro de 1885 enviando ao procurador da Câmara Municipal e ao coletor de
Rendas Gerais o aviso de que estaria encerrando as atividades seu estabelecimento,
após 10 anos de atividade. Após o leilão dos equipamentos e móveis de seu
ateliê, parte para a Europa. É interessante observar que é após essa viagem
que ele tem a idéia de produzir o Álbum Comparativo, possivelmente
influenciado pela febre das vistas urbanas, dos postais e dos álbuns mostrando
as cidades européias. Ao vender o Álbum Comparativo, segundo ele sua
obra prima, Militão de Azevedo, em carta a seu amigo Portilho, diz: "[...]
como Verdi despedindo-se da música escreveu seu Otello, eu quis despedir-me
da photographia fazendo o meu" (AZEVEDO apud, GRANGEIRO, 1993: 164).
A coleção Militão Augusto de Azevedo
Além
das leituras a pesquisa consistiu em visitas ao Serviço de Documentação Textual
e Iconografia do Museu Paulista da USP, onde foi feita a triagem do material.
A pesquisa utiliza como fonte primária os álbuns
de fotografia de autoria de Militão Augusto de Azevedo, pertencentes à 'Coleção
Militão Augusto de Azevedo' da Seção de Documentação do Museu Paulista da
USP. O conjunto do material é formado por um total de seis volumes, contendo
ao todo mais de 12.000 imagens, entre vistas e retratos. Estes álbuns são
o que se acredita serem os álbuns de controle e mostruário dos estúdios Carneiro
& Gaspar e Photographia Americana, onde Militão atuou. As imagens
presentes nos álbuns são produzidas entre os anos de 1865 e 1885, sendo que
o material imagético com o qual venho trabalhando encontra-se sob a forma
de um banco de dados no qual os retratos podem ser examinados por temas.
O
material deixado por Militão se divide principalmente em vários álbuns por
ele editados, o mais antigo é o Álbum de Vistas da Cidade de São Paulo
(1863), depois vem o Álbum de Vistas da cidade de Santos (1864-5),
o Álbum de Vistas da Estrada de Ferro Santos Jundiaí (1868) e, finalmente,
o Álbum Comparativo de Vistas da Cidade de São Paulo (1862-1887)
de 1887. Porém, a maior parte do material deixado por ele se concentra
nos seis livros de controle dos ateliês Carneiro & Gaspar e Photographia
Americana.
Os livros de controle do ateliê somam, no total, seis livros,
sendo o Livro I de 1865, com 2.117 fotografias, o Livro II de
1870, com 3.223 fotografias, o Livro III de 1872, com 2.715 fotografias,
o Livro IV de 1877, com 737 fotografias, o Livro V de 1879, com
568 fotografias e o Livro VI, sem data, contando com 3.814 fotografias.
Da totalidade de retratados, 7.627 são homens e 3.400 mulheres,
5.272 das imagens apresentam a pessoa de busto, o restante mostra
parcialmente o corpo do retratado, dessas 2.200 são de 'meio corpo',
e 2.180 de 'corpo inteiro', havendo ainda duplas e grupos de pessoas.
Estão nos álbuns algumas imagens inusitadas, como por exemplo,
detalhes de anomalias físicas, 16 retratos de pessoas mortas,
na maioria crianças, fotografias de uma imagem religiosa e, ainda,
de uma máquina de sorteio lotérico.
A minha escolha recaiu sobre
os retratos de 'corpo inteiro' pois eles permitirem uma maior compreensão
do contexto social retratado, já que congregam um número maior de elementos
para serem analisados, tais como, vestuário, mobiliário e adereços do ateliê,
e até objetos levados à cena fotográfica pelos próprios retratados. Como previsto
inicialmente, durante a investigação busquei selecionar retratos que de alguma
forma exibissem a heterogeneidade humana e social de São Paulo. De fato, o
material indica a presença dos mais variados personagens da sociedade paulistana
do período, tais como: artistas, negros, brancos, estudantes, trabalhadores
diversos, crianças, casais, juristas, mulheres, homens etc. Isso confirma
a hipótese que os retratos de Militão possibilitam ter acesso aos mais variados
segmentos em busca de construção de auto-imagens especificas. Movido pela
necessidade de selecionar um material enxuto e ao mesmo tempo representativo,
tanto em relação ao acervo como em relação aos meus objetivos, procurei escolher
fotografias que demonstrassem ser o ateliê de Militão extremamente popular
e aberto às mais variadas formas de representação da sociedade. Quer dizer,
me movimentei guiado pelo critério da heterogeneidade. Posteriormente verifiquei
que os retratos sob essa denominação estão dispostos em três formatos, uma
pequena quantidade esta disposta em cópias que medem aproximadamente 18 X
24 centímetros, outra parte do material no tradicional formato cabinet-portrait,
medindo aproximadamente 15 X 11 centímetros e, finalmente, as cartes de
visite que medem 9,9 X 5,5 centímetros, que são responsáveis por quase
a totalidade do acervo.
Uma vez definido onde esta o material no qual minha pesquisa
avança, minha busca foi em direção a registros que proporcionassem 'olhar
sobre a heterogeneidade humana e social de São Paulo'. A opção exclusiva pelas
cartes de visite se deu por este ser o produto mais popular oferecido
pelos ateliês, penetrando de forma nunca vista na sociedade brasileira. Isso
posto, o que se verificou é que o trabalho concentrou as análises exclusivamente
no Álbum VI, que é onde se concentram as imagens carte de visite cujo
registro representa o retratado de 'corpo inteiro'. Isso trouxe também
outra mudança no recorte, já que o Álbum VI não é datado, mas tudo indica
que ele seja referente aos anos finais do ateliê Photographia Americana,
tendo um provável inicio em 1879 e indo até os últimos dias do ateliê em 1885.
Desta forma, minha analise ficou ainda mais pontual, já que o estudo ficou
restrito as imagens do ateliê Photographia Americana, aquele que foi
realmente propriedade de Militão.
Meu trabalho de pesquisa no Museu Paulista totalizou 18 visitas,
onde pude observar atentamente o material existente. As idas e vindas, foram
proporcionando a seleção de fotografias pertinentes a minha proposta. Uma
vez pré-selecionada a imagem, fui realizando anotações descritivas a respeito
do material. Algumas informações obtidas por meio da bibliografia histórica
mostraram-se extremamente importantes para a análise, como por exemplo os
dados com relação aos tipos físicos da época, às vestimentas, às formas de
apresentação e representação em sociedade etc.
Olhando o material selecionado de modo mais geral, minha primeira
impressão foi que, a despeito dos padrões da época, o conjunto apresentava
grande singularidade. Quer dizer, apesar das cartes de visite, difundidas
como produtos comerciais, estarem condicionadas a padrões definidos de produção
e consumo - como por exemplo, montagem cênica, uso e abuso das poses, emprego
de certas técnicas etc. -, elas permitem flagrar a visão particular de Militão.
Se um primeiro passar de olhos pelo material retratístico parece
nos colocar diante de uma mesma imagem, já que elas se assemelham, certos
indícios expõem o olhar do fotógrafo, suas escolhas e perspectivas. E são
eles, que deveriam guiar a análise.
O estudo das cartes de visite obriga a termos atenção
à cena social e ao décor interno: equipamentos do ateliê, adereços,
painéis utilizados como fundo, mobílias e roupas. O contexto histórico se
coloca entre o pesquisador e o retratado como uma espécie de ponte. Literalmente,
de um lado está a realidade social, do outro lado, o fotógrafo, seus pontos
de vista e anseios, o que faz dele mais um rico e fértil referencial interpretativo.
Como dito antes, a análise tenta desenhar um movimento que combina diferentes
pontos de partida e de chegada: o fotógrafo, o ateliê, a cidade de São Paulo,
cada um desses pólos remetendo invariavelmente ao outro.
Uma vez definidas as imagens para a análise mais detalhada,
foram encomendadas as reproduções ao Museu Paulista. A aquisição das imagens
foi feita em dois lotes, o primeiro totalizando 31 imagens, material adquirido
em abril de 2001 e o segundo lote, cuja aquisição foi feita em julho de 2002,
totalizando 36 fotografias. Uma vez em posse das reproduções fotográficas,
as imagens foram digitalizadas a uma resolução de 300 DPI, o que permite uma
boa visualização dos detalhes dos retratos por meio dos recursos de ampliação
da visualização, disponíveis nos programas Microsoft Foto Editor e
no próprio programa Windows ME. Ainda a respeito do tratamento dado
ao material fotográfico, foi feita uma equalização dos tons nas fotografias,
já que elas apresentavam uma grande diferença de tonalidade entre elas. Isso
foi feito com os recursos do programa Photo Shop 5.0. Na ultima seleção
do material cheguei a um total de 30 fotografias para serem apresentadas no
trabalho final.
No que se refere a analise das características do trabalho
apresentado por Militão, posso afirmar que ele ao retratar personagens da
cena social paulistana ele está, de certa forma, inventando e reinventando
por meio das imagens fotográficas os valores dessa sociedade. Creio que, na
construção do retrato, os anseios de representações pessoais mesclam-se a
valores sociais do meio social. Se isso é verdade, as condições do ateliê
e o conhecimento técnico do fotógrafo impõem alguns limites para à construção
do 'sonho' do retratado. É justamente sobre este movimento definidor dos contornos
das imagens projetadas que a análise aqui compreendida procura jogar luz.
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