A Bahia reimaginada: como transformar um velho entreposto comercial
em um novíssimo produtor de tradições
Roque Pinto
... Muitos Mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés aos homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia
Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.
Gregório de Mattos
1. Introdução
Pretendo, aqui, pontuar determinados vetores que, de algum modo,
ajudaram a construir, nos últimos decênios, uma imagem baiana fortemente
marcada voltada, principalmente, para a economia do lúdico
e do turismo. A linha de raciocínio exposta nos parágrafos seguintes
segue o eixo das principais idéias que compõem o projeto de dissertação
que ora desenvolvo no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais
da Universidade Federal da Bahia
[1] .
Proponho-me a investigar, aqui, o processo de formação e disseminação
da idéia de uma cultura baiana genuína e idiossincrática,
isto é, da construção de uma Bahia estereotipada mítica,
atemporal, praieira, festeira, etc. Bahia esta que, para o turista
(e para muitos habitantes do interior do Estado), compreende apenas
a cidade de Salvador (outrora conhecida como a Cidade da Bahia)
e o Recôncavo e, portanto, não coincidente com os limites geo-políticos
do Estado da Bahia.
Assim, intento circunscrever, sobretudo, os artífices e arautos
mais importantes na elaboração de uma certa cultura baiana,
fazendo o inventário dos elementos musicais, literários e visuais
que foram incluídos (ou não) neste processo, a partir de um amálgama
de signos compartilhados internamente e referidos a outras esferas
simbólicas maiores, como a sociedade nacional ou o próprio mundo
global.
Nessa perspectiva, é interessante verificar como é desenvolvida
uma certa noção de baianidade, principalmente a partir dos
anos 70 do século XX, com a presença ostensiva de alguns atores
e agências no cenário soteropolitano, como o mundo publicitário
emergente baiano; o governo nos níveis estadual e municipal com
a Bahiatursa órgão oficial de turismo do Estado da Bahia
e a Emtursa órgão de turismo oficial da cidade de
Salvador; representes dos interesses das agências de viagens, hotéis,
restaurantes, etc., empenhados na difusão de uma bem elaborada imagem
baiana para o Brasil e para outros países.
Auxiliado por uma literatura específica ligada ao estudo da formação
e gestão das identidades sociais, aos fundamentos do marketing moderno
(principalmente no ramo do turismo) e aos trabalhos voltados para
a indústria cultural, procuro investigar o ambiente sócio-político
soteropolitano e os atores mais ativos na manutenção da idéia
de uma certa cultura baiana que, afinal, se tornaria
nos anos 90 o maior ativo da economia do turismo e do entretenimento
local , mapeando, desse modo, os elementos estéticos e representacionais
em geral que foram ou descartados ou amplificados e reproduzidos
[2] no âmbito do colorido e próspero cenário / mercado local.
É ponto pacífico a idéia de que as indústrias do turismo e do
lazer compõem, atualmente, um setor muito importante na economia
soteropolitana, e que sua afirmação implica na elaboração de uma
complexa trama identitária cuja projeção, em esfera nacional, requer
a construção e a afirmação de uma forte marca de Bahia ligada
a festividades populares e atividades lúdicas.
Assim, a noção de baianidade pode ser pensada como
a representação de um modus vivendi baiano ideal, distinto
do resto do país e dotado de características bem peculiares. De
fato, podemos pensá-la como uma construção identitária recente,
desenvolvida em grande parte por uma sub-elite regional ligada às
artes e às letras, em função de uma matriz simbólica popular
local. E esse substrato identitário, por seu turno, tornou-se um
terreno bastante fértil para o cultivo de uma imagem turística ligada,
principalmente, a um passado africano que não passa
e ao moderno carnaval elétrico.
Nesse sentido, esta baianidade poderia se inserir
em uma espécie de gramática representacional da brasilidade como
um todo, amplo imaginário coletivo onde caberia à Bahia o posto
de ator especializado no lúdico, na promoção do entretenimento festivo-musical,
especialmente carnavalesco, passando a ser algo de inerente à sua
própria identidade.
Dessa forma, a idéia de uma cultura baiana genuína,
profunda e idiossincrática é elaborada e difundida pela produção
da grande indústria cultural local que, por sua vez, é retro-alimentada
pelas práticas e perspectivas dos nativos-consumidores em função
desta mesma imagem hegemônica.
2. A economia política da identidade
baiana
É indiscutível o fato de que, na Bahia, os setores ligados ao
turismo e ao lazer alcançaram grande projeção nacional, com larga
veiculação nos meios de comunicação do país, compondo uma fração
altamente relevante da economia local. Apenas nos dez dias do reinado
de Momo em Salvador, por exemplo, surgem cerca de 135 mil postos
de trabalho temporário, é bom que se diga e movimenta-se
algo em torno de R$ 300 milhões (Santiago, 1999, 107)
[3] .
Nessa perspectiva, os setores do turismo e do entretenimento
respondem pela circulação de grandes somas monetárias, interferindo
fortemente na gestão da identidade soteropolitana. E assim o fazem
não só por causa da beleza natural da cidade mas, sobretudo, graças
ao simbolismo que a envolve. Simbolismo este que, como valor agregado
ao Produto Bahia, elevou Salvador ao posto de segunda
cidade em fluxo de visitantes do Brasil, segundo a Bahiatursa
e com pretensões de tornar-se o maior pólo turístico do país.
Assim, o diferencial mercadológico representado pela imagem de
um jeito particular dos baianos (de Salvador
e do Recôncavo) uma suposta baianidade parece
ser um eixo fundamental para a compreensão dos traços diacríticos
mais visíveis para o olho não-nativo.
Vejamos, pois, rapidamente, como podem ser imbricados o substrato
científico-literário relativo ao tema, as diretrizes político-institucionais
e a rede midiática que envolve a vida social local. E como esses
segmentos repercutem tanto no tecido social soteropolitano quanto
na imagem feita pelo (e para) o estrangeiro (seja ele portenho
ou paulista).
O professor Cid Teixeira, um dos mais eminentes historiadores
da Cidade da Bahia, em uma entrevista recente (Teixeira, 1996),
indica que a cidade de Salvador não se formou por causa do Brasil,
mas por uma imposição internacional a cidade não evoluiu,
como era comum, de um agrupamento que se transforma em vila e posteriormente
em cidade: Salvador já foi planejada pelo governo português com
fins, digamos, transnacionais.
Segundo ele, nós não nascemos em função do Brasil, nascemos
para ser base, uma sustentação, um apoio, uma guarda, um reabastecimento,
um estaleiro de todo o processo mercantilista internacional. (...)
Assim, nós fomos pensados, projetados, imaginados, realizados para
sermos um prolongamento europeu, para sermos um bairro de Lisboa
transportado para os trópicos. Paralelamente a esta situação fomos
também o principal porto de ingresso da grande diáspora africana
para o Novo Mundo. Então, éramos, por fatalidades histórico-geomorfológicas,
o maior agrupamento europeu fora da Europa e o maior agrupamento
africano fora dÁfica. (Teixeira, 1996, 9-10).
Contudo, com a abertura dos canais do Panamá e de Suez, com o
desenvolvimento da tecnologia da uso da beterraba para a produção
açucareira na Europa e com o incremento dos engenhos de açúcar no
Caribe, nós deixamos de súbito de ser a grande projeção de
fora para dentro, de África e Europa, para sermos uma ilha cultural
inteiramente perdida no mundo porque deixamos de ser o porto de
trânsito obrigatório da navegação européia. (op. cit., 10).
Assim, Salvador, que desde 1549 era a capital do Brasil, deixa
de sê-lo em 1763. Os engenhos do Recôncavo começam a entrar em colapso
e, ao que parece, cada vez mais a região vai se encerrando em si
mesma. A idéia do atraso econômico baiano no século XIX é recorrente
tanto na Economia e na Sociologia quanto na Antropologia e História,
quando se referem à Bahia. Muitos pesquisadores apontam o arrefecimento
da economia do Recôncavo especialmente entre a metade do
século XIX até a metade do século XX, o chamado enigma baiano
como um elemento central para a explicação do atual arranjo
da sociabilidade soteropolitana.
Nessa perspectiva, Antônio Risério atribui a existência de uma
certa trama psicossocial de uma nova cultura, organicamente
nascida, sobretudo, das experiências da gente lusa, da gente banto
e da gente iorubana (1988, 157) à ascendência do comércio
sobre a indústria e ao isolamento econômico da Bahia no século XIX,
uma vez que, segundo o autor, foi em meio ao mormaço econômico
e ao crescente desprestígio político que práticas culturais se articularam
no sentido da individuação da Bahia no conjunto brasileiro de civilização
(op. cit., 157).
Essa particularidade, segundo Teixeira, esse isolamento
cultural, paradoxalmente provinciano e cosmopolita, estaria
no cerne de uma cultura idiossincrática baiana ou, mais propriamente,
soteropolitana, reproduzida, nos dias de hoje, com bastante ênfase
pelos estrepitosos meios de comunicação de massa voltados
tanto para os nativos quanto para o outro (nacional e internacional).
Assim, já no século XX, duzentos anos depois da perda do posto
de centro administrativo português abaixo do Equador, vemos a velha
Cidade da Bahia e o Recôncavo passarem por uma série de mudanças
importantes, principalmente entre os anos 50 e 70 do século XX.
Já foi exaustivamente discutido, por vários autores, o conjunto
de elementos que teve influência nessa alteração mais acentuada
nos modelos relacionais dos habitantes desta região.
De uma forma geral, quem se debruça sobre este assunto elenca
os seguintes eventos como mais representativos: a vinda da Petrobrás
para o Recôncavo e a implantação da Universidade Federal da Bahia
em Salvador, nos anos 50; nos sessentas a Tropicália e o Cinema
Novo, no campo das artes, e a implantação do Centro Industrial de
Aratu; no decênio 1970-1980, o Pólo Petroquímico de Camaçari, o
forte crescimento populacional e a implementação das avenidas de
vale em Salvador e o começo da visibilidade do Carnaval e do turismo
locais como um empreendimento econômico profissional.
Portanto, é-nos importante pontuar o momento da transição de
uma Salvador com feições quase comunitárias, etnografada
por Jorge Amado, que tanto encantou Carybé e Verger, para uma sociedade
de massa, densamente povoada, permeada por uma pobreza epidêmica
reflexo direto do êxodo rural, quer seja do sertão, fugindo
da seca, ou do Recôncavo, vítima do refluxo agrícola da cana e do
fumo, entre outras culturas.
É nesta ambiência que, principalmente no último quartel do século
XX, Salvador vê a formação de uma nova classe média, formada por
ocupantes de cargos técnicos e de gerência nos centros industriais.
Por outro lado, surgem os animadores e proto-empresários da nascente
indústria cultural local e da economia do entretenimento, esta última
ligada ao Carnaval, ao turismo e à música popular que, se
numericamente era pouco significativa, exercerá, nas décadas seguintes,
uma significativa influência quanto ao impacto identitário
do ser baiano frente às mídias nacionais em especial
de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Assim, a partir dos setentas, o turismo local deixa de ser um
turismo de aventura para os que procuram a excitação
no exótico, e o receptivo local passa a ser, efetivamente,
planificado, orientado por metas objetivas, sob o comando dos órgãos
oficiais de turismo, entre outros agentes. Aqui deve começar o nosso
esforço de reconstrução conjuntural ao mesmo tempo em que se fará
o traçado do percurso de alguns atores estratégicos para os nossos
objetivos.
Nesse contexto específico, devo registrar o desdobramento de
dois movimentos distintos mas que, em alguns momentos, tornam-se
superpostos, contíguos ou mesmo opostos entre si: uma tendência
diz respeito à própria dinâmica da sociedade soteropolitana e, em
menor medida, da população do Recôncavo; e o outro relaciona-se
às principais táticas e estratégias dos agentes (públicos e privados)
mais estritamente ligados ao gerenciamento das indústrias cultural,
do turismo e do entretenimento radicadas na região.
Desse modo, deve-se contrastar o plano de fundo que possibilitou
a expansão das indústrias cultural, do turismo e do lazer na Bahia,
especialmente em Salvador, nos últimos decênios mercados
fundamentais para a elaboração de uma certa imagem pública
baiana cada vez mais espetacular.
Pois à medida em que são desveladas algumas conexões estratégicas
estabelecidas ao longo das três últimas décadas do século XX, torna-se
possível mapear as manobras mais importantes dos agentes privilegiados
na área de planejamento e execução das políticas voltadas para a
economia do turismo e do entretenimento.
E, dessa maneira, temos aqui um problema sociológico que pode
ser enunciado como a definição do complexo sistema sócio-econômico
que, através da indústria cultural, amplifica o discurso da baianidade,
transformando-o em um produto altamente lucrativo através do turismo
e da economia do lúdico. E que é reproduzido popularmente, tradicionalizando-se
na medida em que se multiplica midiaticamente.
Assim, um discurso que, atualmente, é chamado tanto pela imprensa
quanto pela literatura do turismo (ou mesmo por alguns renomados
escritores locais) de baianidade seria um construto
plasmado na interação entre as esferas do cotidiano mundano, por
um lado, e da política econômica, por outro, no contexto da afirmação
midiática e da mercantilização de uma certa alteridade.
Podemos pensar, portanto, essa narrativa da baianidade como uma
construção ideológica relativamente recente. Uma formação simbólica
pensada, no sentido geertziano, como um sistema cultural que alinha
as noções de ideologia e cultura, sendo a primeira uma faceta da
segunda.
Falamos aí de cultura enquanto uma teia de significações produzida
interacionalmente (Geertz, 1978, 15), algo que articula as ações
e seus sentidos para os sujeitos como uma rede elástica, amoldando-se
conforme os novos significados que são dados pelos indivíduos e
grupos às suas próprias ações.
Assim, a noção de baianidade se constitui, basicamente, como a
representação quase caricatural de uma suposta cultura singular,
espontânea, criativa, musical, etc. e vendável
como um produto turístico que atende a um segmento específico de
consumo.
Esta idéia passou a ser fortemente investida pelas mídias impressa
e eletrônica nos últimos decênios, passando a se constituir como
um instrumento de interpretação e auto-representação dos baianos
(de Salvador e do Recôncavo), materializado em uma série de traços
tomados como naturais e evidentes, como se emanassem da vida popular
autêntica (Pinho, 1996).
Podemos identificar alguns dos contornos deste construto simbólico
em diversas manifestações estéticas do século XX, que vão desde
as figuras de Carybé, passando pela lente de Verger e o cancioneiro
de Caymmi até a literatura de Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro,
entre outros ícones de áreas diversas, como a arquitetura, as artes
plásticas e, em grande medida, a canção popular, incluindo aí a
axé-music.
Entre as fontes literárias que podem gerar um bom material de
investigação, temos os guias turísticos da Bahia e os textos acadêmicos
e para-acadêmicos, já clássicos, de cronistas e ensaístas como Fred
de Góes (1982) e Antônio Risério (1981; 1988; 1993, etc.), por exemplo.
Aliás, este último não só compôs um vivo quadro da Bahia através
de seus livros como também participou da história recente do Carnaval
soteropolitano escrevendo letras de canções ao lado de Moraes Moreira.
Para Risério, o mito baiano é um fato (1993, 118).
Ele se propõe, inclusive, a definir seus pilares: O mito baiano
está assentado num tripé: antigüidade histórica, originalidade cultural,
beleza natural e urbana. Foi a partir desses elementos, que são
reais, que o mito evoluiu, dos tempos coloniais aos dias de hoje.
(...) Atualmente e ainda a partir de elementos reais
é a vez dos negros idealizarem ao extremo o axé da Bahia.
É um mito persistente e rico. (op. cit., 112).
Claro que, sendo um ensaísta, o autor
pode estender sua linha de raciocínio sem muita preocupação com
a precisão analítica. Se bem que os textos que se situam para além
da ciência apresentam, via de regra, uma riqueza descritiva e mesmo,
em alguns casos, um ineditismo da perspectiva adotada que muitas
vezes indicam determinados caminhos de investigação bastante interessantes.
Já na teoria sócio-antopológica propriamente dita, dispomos de
uma quantidade relativamente grande de obras que dizem respeito
ao tema ainda que a grande maioria seja constituída de trabalhos
acadêmicos não publicados e sejam direcionados, mais especificamente,
ao estudo de organizações carnavalescas afro.
Ainda assim, podemos elencar alguns autores relevantes para este
trabalho, como Antônio Godi (1997), que se dedica ao processo de
massificação da música popular; Ari Lima (1997), com seu trabalho
sobre a Timbalada; Paulo Miguez (1996) e outros pesquisadores da
área de Administração, que analisam a dimensão organizacional do
Carnaval de Salvador; Osmundo Pinho (1996), que pesquisa na área
da cultura negra soteropolitana, entre outros.
No entanto, um dos pesquisadores que mais tem se dedicado ao
tema da identidade baiana, com especial atenção ao mega-evento do
Carnaval de Salvador, é o sociólogo Milton Moura (1987; 1996a; 1996b;
1988; 1999 [4] ; etc.).
Segundo o autor, a baianidade pode ser entendida como uma representação
o nome de nossa máscara típica e pública (1999,
102) dotada de certos traços característicos, como a familiaridade,
a sensualidade a religiosidade e, em grande medida, a negociação
política.
É muito interessante a sua perspectiva do módulo de representação
da Bahia. Indica o cientista que, tanto na vida cotidiana quanto
no Carnaval, os atores tendem a convergir para determinados espaços
sociais que não geram a síntese ou a mestiçagem, mas uma justaposição
de elementos que desempenham papéis distintos, complementares e
interdependentes entre si.
Como exemplo da sua hipótese, ele evoca as imagens do Apolo
de ébano e a Afrodite de mármore. Jacaré e Carla (Perez, do grupo
de pagode É o Tchan), juntos na mesma cena, tão assimétricos como
adjacentes ou subjacentes (1999, 104).
Não sem motivo, seu exemplo remete à dita axé music (no
início, assim chamada pejorativamente). Para ele, o tipo de música
produzida aqui é muito mais do que uma simples manifestação estética.
É o próprio emblema do arranjo sócio-político local. De fato, mais
recentemente, a área musical tem sido o campo mais identificado
pelo senso comum como um traço idiossincrático da Bahia.
E a música feita aqui passou a ser chamada de axé music
ou música baiana. Ora, a teoria antropológica já há muitas décadas
vem apontando para a relevância dos nomes que são dados às coisas.
Pois bem, é importante observar que, se tal ritmo ou gênero ou interface
de repertório (como prefere Moura) se autodenomina música
baiana, presume-se que ela representa todo o conjunto desta
sociedade e que, por contraste, deixaria de fora toda produção
musical que não estivesse contida nela própria que, portanto, não
seria a música da Bahia. Por exemplo, o extinto grupo de
rock Camisa de Vênus, Raul Seixas ou mesmo Tom Zé, hoje tão em voga,
nesse sentido, não seriam representantes da música baiana,
que é relacionada à axé music e menos comumente a artistas
baianos da MPB, à guisa de Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Cabe-nos fazer, no entanto, uma breve observação. Podemos configurar,
por um lado, a axé music que, por vezes, também é
(auto)denominada de música baiana como uma interface
de repertório específica, surgida há cerca de 15 anos, dotada
de feições e direções próprias, voltada estritamente para o comércio
musical, sem nenhum (ou quase nenhum) compromisso com a arte
ou com uma elaboração musical mais refinada. E, por outro, o que
aqui chamamos de música baiana, com grifo, significando todo
o inventário musical que compreende desde manifestações tradicionais
do Recôncavo baiano passando por Caymmi até Caetano Veloso e Gilberto
Gil, entre outros, pensando-os mais como um continuum da
tradição musical do Recôncavo re-elaborada.
Vale notar, todavia, que a axé music e a aqui chamada música
baiana, não são opostas entre si, mas, digamos, situam-se em
dois planos do mesmo processo. Quer dizer, a axé music nunca
pretendeu romper com a música baiana mesmo por que
ela se caracteriza não como um movimento de conotações políticas
e sim como um agregado de artistas que, em determinado momento e
dada uma certa conjuntura, foram catalisados em um arranjo sócio-político
bem definido (cf. Moura, 1999) e um padrão estético-musical (amplamente
visual) imediatista, pragmático e notadamente comercial o
que é visível em suas próprias músicas, com seus arranjos
e letras pouco elaborados e seus refrões fáceis de ser aprendidos
e repetidos.
Nesse sentido, pode-se dizer que a estética (musical e visual)
da axé music representa o invólucro do Produto Bahia,
uma vez que tal estilo musical tem larga penetração nos media
de todo o país e contribui sobremaneira para a afirmação da imagem
de uma Bahia idealizada, com um forte apelo em suas músicas de temas
como sol, verão, mar, praia, alegria, prazer, sensualidade, o Farol
da Barra, o Pelourinho, o Carnaval, etc.
Portanto, parece ser pertinente e relevante a associação entre
a constituição e a disseminação do discurso da baianidade e a estética
da axé music e da música baiana. Mesmo porque essa
produção de cultura de massa vai ser extremamente significativa
na animação do cotidiano local (com forte incidência
nos jovens) e na reatualização da Bahia mística do imaginário
mais nobre.
Desse modo, Moura (1996, 16) reafirma que a atualização simbólica
do Carnaval local, por exemplo, constitui um eixo fundamental
da possibilidade, estruturação e reprodução desta sociedade. A cultura
do Carnaval se nos apresenta, desta forma, como um elemento axial
da engenharia política da Bahia ao mesmo tempo tradicional e moderna.
3. O intrigante (e lucrativo) caleidoscópio da baianidade
O conceito sócio-antropológico de identidade coletiva, tal como
vem sendo desenvolvido nos últimos decênios pela literatura especializada,
pode ser bastante útil para a investigação do contexto soteropolitano.
Assim, seguindo o pensamento de Stuart Hall (1997, 53), podemos
dizer que as identidades coletivas nacionais, regionais ou locais
são formadas e transformadas no interior de uma larga rede de representações
sociais.
Tomando o seu próprio exemplo, ele nos diz que só sabemos o que
significa ser inglês devido ao modo como a inglesidade
(englishness) veio a ser representada dentro e fora da Inglaterra.
Portanto, a idéia de Bahia (da mesma forma que o Brasil ou o Nordeste
brasileiro) não se estabelece como uma identidade natural, o reflexo
daquilo que seríamos essencialmente.
Dessa maneira, um suposto ethos baiano é constituído como
algo que produz sentidos (um sistema de representação cultural):
os indivíduos participam da idéia do coletivo tal como ela
é representada em sua cultura local ou extra-local. Podemos
inferir, portanto, que trata-se aí de uma comunidade simbolicamente
enformada.
Assim, podemos identificar vetores convergentes que viabilizam
a atualização de uma identidade comum tanto nas estratégias
representacionais de pertencimento mais socialmente difusas quanto
nas táticas particulares, políticas e empresariais, cada vez mais
direcionados para uma área específica da economia local: a economia
do axé, a indústria cultural do Carnaval, do turismo e do
entretenimento.
Nesse sentido, pode-se analisar o caso de Salvador pensando no
imaginário soteropolitano como um substrato simbólico que alimenta
a indústria cultural que, por seu turno, retro-alimenta o reticulum
identitário popular local, de acordo com a relação que
se estabelece entre identidade, poder, dinheiro, diversão e comunicação.
Assim, temos aqui um amplo jogo de espelhos identitários, onde
a Bahia se inscreve, no plano nacional, como uma unidade simbólica
dotada de um caráter fortemente distintivo. O baiano, à semelhança
do mineiro e do gaúcho, representando um modelo investido
de traços peculiares, reconhecidos pelos brasileiros em geral, diferentemente
do paranaense, do sul-matogrossense ou do capixaba, por exemplo.
Podemos, portanto, seguir Maria Brandão com sua proposta de
análise de uma gramática nacional, uma espécie de língua-franca
que decodificaria os chamados códigos locais ou regionais,
aqueles estilos de interlocução intra ou interclasses, como mais
propriamente a mineiralidade e a baianidade, mas também o tradicionalismo
gaúcho, que acumula o caráter de um movimento de afirmação cultural
ao de um código regional. (Brandão, 1994, 53). Assim, a mineirismo
(ou a mineiralidade, como grifa a autora) seria relacionada à negociação,
enquanto que a baianidade se relacionaria ao lúdico, por exemplo.
No nosso caso, talvez seja importante estabelecer três situações
de contrastes identitários:
1.baianos x gaúchos: talvez sejam os representantes das
imagens gentílicas mais características para o Brasil. Desse modo,
pode nos ser interessante verificar, por um lado, por que estas
imagens são tão fortemente marcadas e, por outro, verificar como
o gaúcho é socialmente construído. Sobre os gaúchos, há uma série
de trabalhos acadêmicos que, apreendidos em seu conjunto, podem
nos auxiliar sobremaneira. Contudo, dada a escassez de espaço desse
nosso paper, deixamos em aberto esta linha de investigação,
a fim de dar ênfase a outras perspectivas, estas mais próximas do
núcleo duro deste trabalho.
2. baianos x paulistas: aqui se encontra uma dicotomia
relevante para o nosso trabalho à medida em que, segundo os órgãos
oficiais de turismo da Bahia, o montante maior de visitantes que
se deslocam para Salvador e para todo o Estado, de um modo
geral é de paulistas, na faixa etária entre 36 e 50 anos,
do sexo masculino, já conhecedor do local e com renda mensal acima
de U$$ 2.000,00 (Bahiatursa, 1998 apud Pinto, 1999, 18).
Desse modo, podemos estabelecer uma oposição simbólica entre
Bahia e São Paulo, a primeira representando a história, o passado,
a tradição (e, consequentemente, o atraso econômico, a estagnação)
e o segundo, a locomotiva do país, a pujança econômica,
o mundo do trabalho e o centro nervoso do Brasil.
Temos, por suposto, uma oposição entre cultura (Bahia) e civilização
(São Paulo), ainda mais que os paulistas vêm aqui gastar o dinheiro
acumulado no ethos do trabalho formal, impessoal, onde
lhe servem um sanduíche sem ao menos lhe olhar na cara, como
observou, certa feita, um amigo, soteropolitano como eu próprio.
Assim, o turista típico-ideal paulista que vem aqui consumir
a cultura baiana vem não apenas para provar o gosto exótico
do acarajé mas, sobretudo, vem esperando ser atendido por alguma
baiana de acarajé preta, gorda e de sorriso fácil, que não lhe servirá
seus quitutes sem antes falar sobre sua sobrinha que engravidou,
no Carnaval, de um rapaz que tinha um comércio que faliu, mas que
já está trabalhando, desde março, no escritório da Azulzinha e já
tem até um carro novo, mas que só quer saber de comer água na biboca
de Val, lá no Engenho Velho, e que não quer se separar da mulher
para assumir o filho que fez na coitada, que largou até a escola
por causa daquele sujeito, mas agora está vendo se arranja uma coisinha
qualquer com uma prima que é balconista no Paes Mendonça...
Nosso turista civilizado e branco, de olhos claros e cabelo
escorrido, está predisposto a encontrar em Salvador algo de
exótico, típico, pois a verdade é
que em Salvador você encontra o que há de mais autêntico no povo
brasileiro. A cidade respira magia, misticismo, muito encanto e
beleza (guia turístico, 1996, 4) e nesse clima de muito
axé, tudo isso é envolvido no cheiro inebriante do acarajé, ao som
dos atabaques, dos ritmos afro e caribenhos. (op.cit., 8).
Claro que este nosso visitante não suspeita que os encantos e
as magias do velho/novo mundo, compreendido entre os faróis da Barra
e de Itapuã, são tão construídos quanto o ethos
paulista do trabalho e da (suposta) racionalidade empresarial, ladeado,
por sua vez, pelas marginais Pinheiros e Tietê.
Portanto, o estado mental expressão muito cara aos
profissionais de marketing vendido nos pacotes turísticos
enfatiza uma série de dicotomias entre paulistas (paulistanos) e
baianos (soteropolitanos), facilmente verificáveis, como: velocidade
x lentidão; trabalho x preguiça; negócio x ócio; cosmopolita x provinciano;
shopping x praia, etc.
3. baianos x brasileiros: talvez seja interessante contrapor
uma certa identidade baiana a uma identidade nacional. Sobretudo
se pensarmos nas estratégias mercadológicas do turismo baiano. Por
exemplo, nas mais importantes feiras e exposições de turismo no
Mundo, o Brasil geralmente apresenta um stand, como os demais países.
A Bahia se faz presente não junto aos outros Estados brasileiros,
mas sim em um outro stand, acoplado ao do Brasil. Ou seja, a Bahia
se mantém contígua ao Brasil e não dentro dele. Assim,
é possível haver uma superposição, uma proximidade ou mesmo uma
oposição de identidades entre o ser baiano e o ser brasileiro.
O próprio futebol, instituição das mais importantes no Brasil,
pode nos dar algumas pistas. É sabido que o futebol baiano, apesar
de ser centrado na dupla Bahia e Vitória, responde por um dos maiores
números de público médio por partida, no país. Em termos de campeonato
nacional, então, há um contraste muito acentuado, de forma que é
comum os estádios soteropolitanos estarem lotados, durante este
torneio anual, enquanto que, em outras praças, as bilheterias apresentam
resultados pífios.
Pois bem, na maioria dos jogos amistosos da Seleção Brasileira
de Futebol os estádios lotam para verem alguns dos melhores jogadores
do Mundo. Isto parece não se repetir em Salvador. Ao contrário.
Em 1999, alguns poucos milhares de pessoas se espalhavam confortavelmente
na Fonte Nova para assistir ao amistoso Brasil x Holanda, um dos
maiores clássicos do futebol mundial. No dia seguinte, o mesmo estádio
estava completamente tomado para o BAVI da final do campeonato baiano.
Situação que é sintetizada nas palavras de um informante: eu
só pago pra ver a minha Seleção, que é o Vitória. Claro que
este discurso é simétrico ao dos torcedores do seu arqui-rival,
o time do Bahia.
Nesse sentido, à medida em que estabelecemos as correlações identitárias
em situações distintas, confrontando o baiano com o gaúcho,
o paulista e o brasileiro, arrolamos, quase que por
correspondência biunívoca, o inventário dos traços idiossincráticos
que compõem a baianidade e, assim, elencamos quais manifestações
estéticas fazem ou passam a fazer parte deste arranjo.
Assim, podemos inferir que a construção simbólica de uma cultura
peculiar, profunda e exótica voltada para o outro
ou para a auto-exotização de si mesma é elaborada segundo
disposições mais ou menos bem definidas, visando fins específicos
a partir da oferta de um diferencial de mercado no setor de bens
e serviços ligados ao turismo nacional e internacional.
Uma certa idéia difusamente mítica de baianidade é captada e capitalizada
pelos agentes inseridos neste setor da economia local. Vale, portanto,
destacar a importância da dimensão cultural, ideológica ou mesmo
identitária no contexto do desenvolvimento da economia e do Estado
nos últimos decênios. Esta idéia do lúdico, da eterna festa baiana,
proporciona, em termos pragmáticos, a oferta em larga escala de
serviços de lazer e de turismo, e é amparada economicamente por
uma imensa estrutura comercial de show-business associada
aos governos estadual e municipal (e, evidentemente, a seus órgãos
especializados, como a Emtursa e a Bahiatursa).
Algo que fica bastante nítido quando o velho caudilho
baiano, o atual senador Antônio Carlos Magalhães, ao ser perguntado,
em uma entrevista, o que é baianidade (Magalhães, 1998, 15), ele
responde que é um estado de espírito em relação à terra em
que se vive e a todas as características singulares da Bahia, que
nenhuma outra terra tem, como o sincretismo religioso, a cordialidade.
Segue dizendo que o baiano é o povo mais cordial do Brasil e que
na Bahia não existe racismo nem preconceito. ACM coroa sua elegia
afirmando que não vai ao candomblé por crença, mas por... baianidade.
Afinal, diz ele, quem não conhece o candomblé, não pode governar
a Bahia.
Portanto, pode-se pensar a idéia de baianidade algo caracterizado
como um modus vivendi baiano idealizado, que compreende supostos
traços culturais peculiares como parte de uma espécie de
gramática política nacional, como propõe Maria Brandão (1994, 52):
E, obviamente, a Bahia continua a produção de sua homogênea
mercadoria de exportação por excelência, a afirmação do bom viver,
da fidalguia de sentimentos, da convivência entre
raças e de sua jovem nordestinidade identificação com
os interesses regionais do Nordeste, enquanto praticando, quase
sem retoques, sua baianidade assimétrica nas relações internas entre
brancos e pobres e seu bairrismo pleonasticamente
provinciano e narcísico.
Configuram-se, assim, baianamente, as teias de narrativas,
práticas e símbolos em conexões complexas, em tessituras sutis,
em sinuosos encadeamentos onde a tradição é conformada, criada e
recriada. Onde, enfim, o presente reduplica o passado pelos meios
mais modernos e por mãos bastante hábeis.
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[Livro não editado]
[1] Trabalho orientado pelo Prof. Dr. Gey Espinheira, a quem
aqui agradeço pela críticas e sugestões, embebidas em puro refinamento
intelectual. Também agradeço ao Prof. Dr. Roberto Albergaria pela
sua valiosa contribuição na confecção deste artigo.
[2] O termo
reproduzir, aqui, significando duas coisas distintas e
interligadas entre si:
a) Re-produzir,
isto é, produzir de novo, re-elaborar algo. No nosso caso, seria
capitalizar certos traços nativos brutos e torná-los
quase uma comodity (produto turístico, diversão,...) principalmente
se pensarmos a Salvador turística como uma cidade temática,
seguindo alguns especialistas em marketing turístico. Neste caso,
Salvador, Ouro Preto ou Paris seriam simétricas à Disneylândia
ou Las Vegas, por exemplo;
b) Reproduzir no
sentido em que se reproduz, por exemplo, uma música em um aparelho
de som, quer dizer, multiplicar. Assim como ocorre com certos
emblemas locais, como a baiana do acarajé, o capoeirista, o Pelourinho,
o Farol da Barra, a praia, etc., obrigatórios em qualquer vinheta
televisiva que aluda à Bahia (outro ponto relevante, é que a Bahia,
para o turista, se resume a Salvador e ao Recôncavo).
[3] É importante
acentuar a falta de números precisos e de estatísticas sistemáticas
relativas à economia do turismo e do carnaval baianos. Também
é conveniente questionar a metodologia usada pelos órgãos oficiais
ligados à essa área.
[4] Tese de doutorado em fase de elaboração.
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